A Associação Marroquina de Direitos Humanos (AMDH) atribuiu ao Estado de Marrocos a responsabilidade pela migração em massa de mais de 50 mil pessoas na direção dos enclaves espanhóis de Ceuta e Melilla. Em documento aprovado pelo seu Bureau Central, a entidade disse que sentimentos de frustração e desespero — sobretudo entre jovens — se tornaram uma marca geracional que traduz o fracasso das políticas públicas.
AMDH aponta causas estruturais
Segundo a AMDH, o êxodo é a expressão de uma crise estrutural construída ao longo de décadas, marcada pela marginalização social e econômica. A organização criticou o que chama de apropriação dos recursos por um reduzido grupo, em um contexto de economia rentista, corrupção e autoritarismo, que acentuariam a desigualdade e a distribuição injusta da riqueza.
A associação também denunciou o que classificou como “exploração” da crise migratória para fins políticos, opinando que pessoas não devem ser usadas como moeda de troca em negociações com Espanha ou outros países europeus. A AMDH declarou ainda inquietação com o que caracterizou como um “silêncio suspeito” das instituições estatais marroquinas, que, segundo a organização, contribuiu para um estado de mobilização social em várias cidades e regiões.
Reações: divergência entre especialistas e posicionamento real oficial
Especialistas consultados pela Agência Brasil divergem quanto à hipótese de anuência oficial marroquina para o fluxo migratório, que alguns analistas apontam como possível instrumento de pressão política junto à Europa. A Agência Brasil registrou essa diversidade de interpretações, sem consenso entre os entrevistados.
Ao mesmo tempo, o professor Mohammed Nadir, da Universidade Federal do ABC (UFABC), afirmou que o êxodo de jovens expôs o “fracasso” do projeto de desenvolvimento nacional nas últimas décadas. Apesar de reconhecer avanços em infraestrutura e em setores industriais, ele afirmou que as transformações não chegaram de forma homogênea à população, citando aumento do custo de vida, falta de oportunidades e dificuldades no acesso à saúde pública como fatores que alimentam o desejo de emigrar.
Contexto socioeconômico e posicionamento do rei
O episódio ocorreu em um momento em que o rei Mohammed VI comemorou 27 anos no trono. Em mensagem dirigida à nação, o monarca destacou conquistas econômicas e institucionais, sublinhando que o país estaria em uma fase crucial de desenvolvimento e pedindo que prevaleçam confiança e otimismo sobre retóricas que alimentem o desespero.
O rei também citou dados de crescimento e transformação da economia, como expansão da capacidade industrial e participação crescente dos setores automotivo e aeroespacial nas exportações. A AMDH e outros críticos, porém, enfatizam que esses avanços não necessariamente se converteram em melhorias sociais amplas ou na redução das desigualdades.
Indicadores citados pela Agência Brasil colocam Marrocos com índice de desenvolvimento humano (IDH) de 0,71 em 2023, posicionando o país na categoria de alto desenvolvimento humano e no 120º lugar entre 193 países. No conjunto do continente africano, o país aparece como o 10º em IDH. O desemprego entre jovens de 15 a 24 anos era de 24,9% em 2022.
Vítimas e números do movimento migratório
O governo de Ceuta informou que quase 100 pessoas morreram durante o percurso até os enclaves espanhóis. A AMDH reportou a movimentação de mais de 50 mil pessoas em direção a Ceuta e Melilla, sem detalhar perfil demográfico além de mencionar forte presença de jovens.
A crise reacendeu debates sobre políticas migratórias, segurança e direitos humanos na região, além de tensões diplomáticas entre Marrocos, Espanha e parceiros europeus.
Fonte
As informações desta reportagem foram compiladas a partir de apuração da Agência Brasil.



