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  • 67 entidades defendem suspensão temporária de transmissões ao vivo no Discord

    67 entidades defendem suspensão temporária de transmissões ao vivo no Discord

    Um abaixo-assinado divulgado em 18 de agosto por 67 organizações da sociedade civil manifestou apoio à decisão da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) que determinou a suspensão temporária da funcionalidade de transmissão ao vivo (Go Live) no aplicativo Discord para usuários no Brasil.

    O teor do manifesto

    No documento, as entidades classificam a medida como proporcional ao risco identificado, por restringir uma função específica sem bloquear a plataforma ou seus demais serviços. O texto ressalta que a retomada do recurso deve estar condicionada à comprovação, por parte do Discord, de que a empresa possui meios para identificar crimes ocorridos em seu ambiente e adotar salvaguardas necessárias.

    As organizações também observaram que outras funcionalidades do Discord permanecem ativas, como troca de mensagens e integrações com serviços terceirizados usados por empresas para automações do dia a dia.

    Contexto: casos e investigações

    A suspensão da transmissão ao vivo foi aplicada no contexto de episódios de violência e coação envolvendo menores de 18 anos. Entre os casos citados pela reportagem da Agência Brasil está o suicídio de uma adolescente de 13 anos, moradora de Naviraí (MS), ocorrido em 22 de julho.

    Além disso, o manifesto destaca que investigações policiais em ao menos oito estados apuram práticas criminosas em plataformas digitais, incluindo Discord e Telegram. Segundo informações do Ministério da Justiça e Segurança Pública citadas na cobertura, entre as violações investigadas estariam recrutamento de crianças e adolescentes para crueldade contra animais, automutilação e induzimento ao suicídio.

    Regras da ANPD e exigências para plataformas

    A carta lembra que, poucos dias antes da decisão sobre o Discord, a própria ANPD havia estabelecido prazo — até 17 de setembro — para que plataformas com mais de 1 milhão de usuários crianças ou adolescentes no Brasil publiquem relatórios semestrais. Esses documentos devem detalhar denúncias recebidas, medidas de moderação adotadas e avaliações de risco realizadas, conforme o procedimento citado no texto.

    As entidades argumentam que a legislação e a atuação da ANPD exigem que as plataformas demonstrem, de forma contínua e verificável, como previnem riscos conhecidos. No caso específico da funcionalidade de transmissão ao vivo, diz o manifesto, caberia ao Discord provar sua capacidade de identificação e contenção de problemas antes de reativar o recurso.

    Quem assinou e quais posições foram destacadas

    Entre as signatárias do documento estão organizações voltadas à infância, proteção digital e direitos humanos, como Coalizão Direitos na Rede (CDR), Instituto Alana, Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, Conselho Federal de Psicologia (CFP), SaferNet Brasil, Instituto Sou da Paz e Associação de Pesquisadores e Formadores da Área de Criança e do Adolescente (NECA).

    O manifesto defende uma abordagem ampla de proteção, com foco em prevenção de riscos, adoção de salvaguardas e responsabilização dos atores do ambiente digital, em vez de medidas que se limitem a restrições de acesso com base na idade.

    Implementação da suspensão e papel do Discord

    Segundo a cobertura da Agência Brasil, a interrupção da possibilidade de usuários no Brasil transmitirem vídeos no Discord já havia sido efetivada pela empresa em 17 de agosto. A carta solicita que a plataforma comprove, na prática, sua capacidade de proteger usuários mais jovens e reafirma a competência da ANPD para exigir medidas que evitem violações de direitos de crianças e adolescentes no ambiente digital.

    As informações sobre a suspensão, o abaixo-assinado e o contexto das investigações foram divulgadas pela Agência Brasil.

  • ANPD diz que criptografia do Discord dificulta monitoramento de lives e determina suspensão preventiva

    ANPD diz que criptografia do Discord dificulta monitoramento de lives e determina suspensão preventiva

    A Superintendência de Fiscalização da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou a suspensão preventiva das transmissões ao vivo (lives) e do compartilhamento de vídeos na plataforma Discord. A decisão está fundamentada em uma nota técnica da agência que avalia que a implantação global de criptografia de ponta a ponta nas comunicações de áudio e vídeo pela empresa reduz a segurança das transmissões e dificulta a adoção de controles previstos no Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital).

    Criptografia, privacidade e a crítica da ANPD

    O Discord ativou, globalmente, a criptografia ponta a ponta para chamadas de voz e vídeo pouco antes de o ECA Digital entrar em vigor, em março de 2026. A empresa afirma que a funcionalidade amplia a privacidade dos usuários, impedindo que terceiros e mesmo funcionários acessem o conteúdo das chamadas enquanto ocorrem. A ANPD, porém, considera que essa escolha técnica inviabiliza mecanismos de supervisão e controles exigidos pela legislação brasileira.

    O ECA Digital exige que provedores adotem medidas “auditáveis e tecnicamente seguras” para proteger usuários menores de 18 anos, incluindo verificação de idade e mecanismos de supervisão parental. Na nota técnica, a Superintendência de Fiscalização destaca que “não basta à empresa afirmar que a comunicação entre usuários é privada e, portanto, não possui acesso ao conteúdo”, e que, se a criptografia inviabiliza um controle, o provedor deve implementar controles substitutivos com efetividade equivalente ou superior.

    Caso que motivou a fiscalização e investigação policial

    A determinação da ANPD tem relação direta com um caso ocorrido em 22 de julho, quando uma adolescente de 13 anos, moradora de Naviraí (MS), tirou a própria vida durante uma transmissão em tempo real por canais do Discord. A agência afirma que o episódio evidenciou “a facilidade de acesso e de utilização” da plataforma por usuários a partir dos 13 anos e que transmissões protegidas pela criptografia foram utilizadas no episódio.

    O caso também foi alvo da Operação Lívia, conduzida pela Polícia Civil do Mato Grosso do Sul e pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, que investiga a atuação de uma suposta organização criminosa acusada de atrair e coagir crianças e adolescentes em comunidades virtuais para práticas de violência e desafios extremados. Na primeira fase da operação, cinco adolescentes foram apreendidos e um homem foi detido; foram cumpridos mandados em vários estados, segundo informações da investigação.

    Denúncias, dados da SaferNet e posicionamento da Discord

    Dados da SaferNet Brasil indicam que, entre janeiro e julho de 2026, as denúncias envolvendo o Discord subiram 54% em relação ao mesmo período do ano anterior: foram 406 queixas em 2026 contra 264 em 2025 no período comparado. A organização registra, entre janeiro de 2017 e julho de 2026, 2.059 links no Discord encaminhados ao seu canal de denúncias para análise.

    Segundo a ANPD, mais de 200 usuários acompanharam a transmissão da adolescente de Naviraí. A agência afirma que funcionalidades de comunicação privada e coletiva — incluindo canais de voz e transmissões audiovisuais — expõem menores a riscos como contato prejudicial, assédio e aliciamento.

    A Agência Brasil consultou o Discord sobre a implementação da criptografia e sua compatibilidade com o ECA Digital, sem obter resposta até a publicação da reportagem. Em comunicações anteriores, a empresa afirmou não tolerar grupos ou indivíduos que promovem violência e disse contar com equipes para remover conteúdos e colaborar com autoridades, afirmando ter contribuído para operações que levaram a prisões. A ANPD registra que a própria empresa admitiu que o episódio que culminou no suicídio ocorreu por meio de comunicações privadas protegidas por criptografia ponta a ponta.

    Orientações de saúde e canais de apoio

    A reportagem lembra que adolescentes e responsáveis, ou qualquer pessoa com pensamentos de tirar a própria vida, devem buscar acolhimento em suas redes de apoio ou em serviços de saúde. O Ministério da Saúde orienta conversar com alguém de confiança e procurar atendimento em Centros de Atenção Psicossocial (Caps), unidades básicas de saúde, UPAs 24h, Samu 192, prontos-socorros e hospitais.

    O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional e prevenção do suicídio de forma gratuita e 24 horas por dia pelo telefone 188, além de atendimento por e-mail, chat e VoIP. A Agência Brasil é a fonte das informações reunidas nesta matéria.