Um balanço apresentado pela Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) mostra que cerca de 1,66 milhão de hectares estão em processo de restauração na região do Sahel, corredor entre o deserto do Saara e a savana do Sudão. O número consta no relatório do Acelerador da Grande Muralha Verde, iniciativa que completou cinco anos e tem por objetivo coordenar ações, recursos e monitoramento da restauração em escala regional.
Resultados principais e alcance
Além da área em restauração, o relatório da UNCCD aponta outros resultados quantitativos: 24 milhões de toneladas de CO₂ equivalente sequestradas ou mitigadas, 4,6 milhões de empregos gerados e 46 milhões de pessoas diretamente impactadas pelas ações. A iniciativa opera numa área total estimada em 156 milhões de hectares, abrangendo 11 países fundadores do oeste do Senegal até o Chifre da África.
O Acelerador foi criado em 2021 para aprimorar a coordenação entre parceiros, acompanhar os fluxos financeiros e auxiliar os países a medir os resultados das intervenções de restauração. Segundo a UNCCD, a estrutura surgiu após compromissos anunciados na Cúpula One Planet, quando parceiros técnicos e financeiros comunicaram mais de US$ 19 bilhões a favor da Grande Muralha Verde.
Limitações no monitoramento e desafios
O próprio relatório ressalta que os resultados são iniciais e que persistem limitações importantes no acompanhamento das ações. O Observatório da Grande Muralha Verde monitora mais de 389 projetos, mas menos de 90 desses projetos apresentam atualmente dados alinhados aos indicadores harmonizados da iniciativa, o que dificulta uma visão consolidada dos impactos.
A UNCCD também aponta que existe uma lacuna entre compromissos financeiros e resultados em campo, motivada por problemas de coordenação entre atores e pelo tempo necessário para que investimentos resultem em ações efetivas no território. A organização lembra que processos de restauração podem levar anos ou décadas para alcançar resultados completos.
Ferramentas de governança, financiamento e dimensão social
Para reduzir a fragmentação de informações e melhorar a verificação, foi criado em 2024, em Ouagadougou (Burkina Faso), o Observatório da Grande Muralha Verde. A plataforma agrega dados sobre projetos, financiamento, resultados e informações geoespaciais e já recebeu o endosso de dez dos 11 países fundadores, segundo a UNCCD.
Também foram estabelecidas coalizões nacionais em nove dos 11 países, reunindo ministérios, sociedade civil, universidades, setor privado e meios de comunicação, com o objetivo de converter compromissos financeiros em resultados verificáveis nos territórios.
O relatório dá atenção à dimensão social da restauração, apontando iniciativas que geram renda e fortalecem capacidades locais. Entre os exemplos citados pela UNCCD estão programas no Mali em que mulheres receberam equipamentos e formação para ampliar uma cooperativa de processamento de produtos agrícolas, e no Chade, onde mulheres foram treinadas para instalar e reparar painéis solares, transformando o acesso à energia em fonte de renda.
Próximos passos e agenda internacional
Entre as medidas apontadas para avançar estão maior ênfase na comunicação dos resultados, o desenvolvimento de mecanismos financeiros inovadores e a gestão transfronteiriça de terras e recursos hídricos. Opções mencionadas no relatório incluem títulos verdes, créditos de carbono e mecanismos de financiamento combinado.
Temas como seca, degradação da terra e restauração dos solos estarão no centro da 17ª Conferência das Partes (COP17) sobre Desertificação, marcada para ocorrer entre 17 e 28 de agosto em Ulaanbataar, na Mongólia. A Agência Brasil informou que acompanhará o evento em parceria com a UNCCD.
O relatório apresentado pela UNCCD destaca avanços mensuráveis, mas sublinha que a consolidação dos resultados dependerá do fortalecimento de sistemas de monitoramento, da execução dos compromissos financeiros em campo e do tempo necessário para que a restauração produza seus efeitos completos.
