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  • Memória e busca por justiça marcam três anos do assassinato de Mãe Bernadete

    Memória e busca por justiça marcam três anos do assassinato de Mãe Bernadete

    Três anos após o assassinato de Mãe Bernadete, a busca por memória e justiça reúne familiares, lideranças quilombolas e organizações de direitos humanos em atos de lembrança e mobilização. Segundo reportagem da Agência Brasil, uma missa em homenagem à liderança está marcada para esta segunda-feira (17), às 9h, no Santuário do Senhor do Bonfim, em Salvador (BA).

    O crime e a tramitação judicial

    A ativista foi morta em sua casa na comunidade de Pitanga dos Palmares, no município de Simões Filho (BA). De acordo com a Agência Brasil, o ataque contou com 25 disparos, a maioria atingindo o rosto da vítima. Dois acusados já foram julgados: Arielson da Conceição dos Santos, apontado como executor, recebeu pena superior a 40 anos, e Marílio dos Santos, apontado como um dos articuladores, foi condenado a 29 anos e 9 meses.

    Outros três suspeitos permanecem à espera de julgamento, previsto pela família para outubro, conforme estimativa citada pela reportagem. O processo corre em segredo de justiça e o Tribunal de Justiça da Bahia não confirmou a data dos próximos atos. A família também relatou episódios em que suspeitos foram presos e depois soltos, situação que alimenta preocupação com a segurança de outras lideranças locais.

    Família, luto e transformação em ativismo

    O neto de Mãe Bernadete, Wellington Pacífico, de 25 anos, estava na casa com outras duas crianças quando o crime ocorreu. Em entrevista à Agência Brasil ele disse que a perda se soma a outro trauma familiar: o pai de Wellington, o também ativista Flávio Pacífico (conhecido como Binho), foi assassinado em 2017. Wellington afirma que são feridas ainda não reparadas e que a impunidade agrava a dor da comunidade.

    Transformar o luto em luta tem sido um caminho adotado pela família. Wellington integra o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH) e decidiu cursar direito em uma instituição da Bahia com o objetivo de atuar em defesa de sua família e das comunidades quilombolas. Jurandir Pacífico, filho de Mãe Bernadete, articula a realização de um novo festival de cultura e arte quilombola, além de cursos de artesanato e uma cozinha solidária, buscando parcerias e políticas públicas para garantir a continuidade desses projetos.

    Entidades exigem responsabilização e medidas de proteção

    A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) emitiu nota cobrando responsabilização dos acusados e medidas concretas de proteção às lideranças quilombolas. A ativista Selma Dealdina, da Conaq, afirmou à Agência Brasil que a brutalidade do crime reafirma a necessidade de maior atuação do Estado na proteção de defensores e defensoras de direitos humanos.

    A Conaq também destacou estatísticas e propostas: levantamento citado pela reportagem aponta que, entre 2016 e 2024, pelo menos 22 mulheres quilombolas foram assassinadas, e que entre 2021 e 2023 outras 33 sofreram ameaças. A entidade apresentou um plano emergencial de proteção de mulheres quilombolas a ser encaminhado ao poder público, com o objetivo de reduzir riscos e garantir segurança nos territórios.

    Contexto de vulnerabilidade

    Valdecir Nascimento, historiadora e fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra, ressaltou que mulheres negras defensoras de direitos humanos enfrentam violência articulada pelo racismo e sexismo. A reportagem lembra ainda que apenas 12,6% dos mais de 1 milhão de brasileiros que se identificam como quilombolas vivem em territórios demarcados, dado utilizado por lideranças para reforçar a urgência de políticas de proteção territorial e de direitos.

    Ao longo do terceiro ano desde o assassinato, familiares e organizações mantêm atos de lembrança, projetos culturais e ações jurídicas, além de pressionar por medidas estatais que protejam lideranças e garantam a responsabilização dos envolvidos. As informações desta matéria são da Agência Brasil.