Tag: memória

  • ABI lança edição especial ao lembrar 50 anos do atentado contra sua sede durante a ditadura

    ABI lança edição especial ao lembrar 50 anos do atentado contra sua sede durante a ditadura

    Na próxima quarta-feira, 19 de agosto, completa-se meio século do atentado à sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), ocorrido em 1976. Para marcar a data, a ABI publicou neste sábado (15 de agosto de 2026) uma edição especial do seu boletim, reunindo documentos da época, fotografias e relatórios confidenciais que mostram o contexto de violência política em que o ataque ocorreu, segundo informações da Agência Brasil.

    O ataque e seus efeitos imediatos

    A explosão aconteceu no sétimo andar do prédio da ABI, localizado no número 71 da Rua Araújo Porto Alegre, no centro do Rio de Janeiro. O artefato destruiu dois banheiros próximos à sala da presidência da entidade e provocou danos em salas vizinhas, no sistema de elevadores e em outros dois andares do edifício de 13 pavimentos, inaugurado em 1938. Não houve registro de feridos.

    Um panfleto deixado no local identificou a autoria: o grupo paramilitar de extrema-direita Aliança Anticomunista Brasileira (AAB). No material, a organização acusava a ABI de estar “totalmente dominada pelos comunistas” e anunciava que o ataque constituiu a “primeira advertência”, conforme relato da associação.

    Fontes e acervo da publicação

    A edição especial do Boletim da ABI foi organizada pelo conselheiro Geraldo Cantarino e tem como base, entre outras fontes, a edição do boletim produzida logo após o atentado, em julho-agosto de 1976. A publicação também incorpora documentos produzidos por órgãos de informação da ditadura, incluindo um informe confidencial do Serviço Nacional de Informações (SNI) de setembro de 1976, disponibilizado pelo projeto Memórias Reveladas do Arquivo Nacional.

    Segundo a ABI, o informe do SNI evidencia o alto nível de detalhamento com que os órgãos de segurança monitoravam acontecimentos, reuniões e deslocamentos da entidade naquela época. “Esse registro ajuda a dimensionar o aparato de vigilância política que atuava naquele período”, afirma a associação, citada na matéria da Agência Brasil.

    Outros atentados e contexto político

    A publicação da ABI lembra que o atentado contra sua sede não foi um caso isolado. No mesmo dia, uma bomba atribuída à AAB foi colocada na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no Rio de Janeiro, mas não chegou a explodir devido a uma falha no mecanismo de detonação.

    Na madrugada seguinte, 20 de agosto, coquetéis molotov foram atirados contra a 1ª Auditoria da 3ª Circunscrição Militar, em Porto Alegre, causando princípio de incêndio. Pouco mais de duas semanas depois, em 4 de setembro de 1976, uma bomba caseira explodiu no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em São Paulo. O Jornal do Brasil registrou que, entre agosto e novembro daquele ano, ocorreram nove atentados no Rio de Janeiro, sendo oito deles reivindicados pela AAB.

    A publicação contextualiza ainda o pano de fundo político: naquele período o país vivia um processo de “distensão” da ditadura militar, defendida pelo então presidente Ernesto Geisel como uma abertura “lenta, gradual e segura”; grupos radicais de extrema-direita reagiam a essas perspectivas de afrouxamento do regime, de acordo com a ABI.

    Memória, imprensa e vigilância democrática

    A edição especial traz fotografias das áreas atingidas no prédio e relata que o endereço permanece até hoje como sede da ABI. A associação destaca o papel da imprensa livre na resistência a regimes autoritários e a necessidade de vigilância contínua contra a censura e a violência política.

    O atual presidente da ABI, Octávio Costa, enfatiza que, ao defender a liberdade de imprensa e os direitos humanos, a entidade também se tornou alvo de grupos intolerantes. Em comunicado citado pela Agência Brasil, ele conclui que “A Casa do Jornalista permanecerá vigilante diante de qualquer ameaça ao Estado Democrático de Direito”.

    Comemoração dos 50 anos

    Na tarde de 19 de agosto, às 17h, a ABI fará um ato no próprio sétimo andar do prédio em memória do atentado. Durante a cerimônia será colocada uma placa com uma frase de repúdio ao terrorismo e em defesa da democracia, segundo a associação.

  • Memória é central na literatura, diz Milton Hatoum ao apresentar ‘Dança de Enganos’

    Memória é central na literatura, diz Milton Hatoum ao apresentar ‘Dança de Enganos’

    Milton Hatoum afirmou que a memória funciona como um elemento essencial na literatura ao apresentar Dança de Enganos, volume final da trilogia O Lugar Mais Sombrio. Em conversa com jornalistas antes de participar de uma mesa na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em Salvador, o escritor explicou que o novo livro retoma as memórias de Lina, mãe de Martim — personagem central dos dois livros anteriores — para revelar feridas pessoais e coletivas.

    Memória como motor da escrita

    Segundo Hatoum, a memória não está cristalizada no passado; ela só adquire sentido quando trazida ao presente. Foi essa operação que orientou Dança de Enganos: a mãe assume a voz principal para expor dores, impactos e traumas carregados por famílias dilaceradas pela ditadura militar. O título, explicou o autor, refere-se às falsidades e equívocos que marcaram a vida da personagem e que só se tornam percebidos por meio da lembrança.

    Trilogia, família e ditadura

    A trilogia O Lugar Mais Sombrio aborda dramas de personagens que cresceram e viveram parte da vida adulta durante um período de opressão, autoritarismo e censura. Hatoum sublinhou, contudo, que o tema político não é o eixo principal das obras: o foco maior é a relação familiar. Ainda assim, as experiências individuais e coletivas vinculadas ao regime militar surgem como pano de fundo e alimentam o conflito narrativo.

    O autor disse também que parte do material que o inspirou veio de relatos e diários de amigos que foram presos e torturados na ditadura. Ele relata ter lido esses depoimentos com choque, mas afirmou ter usado pouco desse conteúdo diretamente, preferindo recorrer à imaginação, que considera o “grande pilar do romance”.

    Posicionamento e repercussão pública

    Hatoum contou que escreveu a trilogia, em parte, como forma de reação ao que viu acontecer no Brasil, e que revisou trechos entre o segundo e o terceiro volumes diante do que qualificou como uma “catástrofe política” no país. Na avaliação do escritor, vozes que defendem a volta daquele período autoritário justificam um posicionamento artístico e público. Ele classificou parte desse grupo como “absolutamente facínora”.

    A presença de Hatoum na Flipelô lotou o auditório do Museu Eugênio Teixeira Leal, conforme a cobertura da Agência Brasil. O autor, considerado um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea, foi recentemente empossado como membro da Academia Brasileira de Letras; ele se declarou o primeiro escritor da Amazônia a ocupar uma cadeira na instituição, segundo as informações que apresentou.

    Educação, empatia e memórias pessoais

    Ao responder perguntas do público, Hatoum destacou a empatia como um antídoto para a crise política e social atual, entendendo-a como oposta ao egotismo e necessária para integrar necessidades individuais e coletivas. Ele também defendeu a reconstrução da escola pública, afirmando que o desmonte dessa estrutura começou na ditadura militar e que sua restauração seria um ato patriótico para formar cidadania e reduzir desigualdades.

    Em tom pessoal, o escritor lembrou da professora que o alfabetizou, Maria Luiza Freitas Pinto, citada também em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. Hatoum contou que, quando lançou seu primeiro livro em 1989, ela compareceu à sessão de autógrafos e revelou ter guardado a sua primeira redação, acreditando que ele se tornaria escritor. A professora viveu até os 104 anos e acompanhou lançamentos até os 100, segundo relato do autor.

    O encontro com Hatoum integrou a programação da décima edição da Flipelô, que, conforme a própria cobertura da Agência Brasil, teve início na quarta-feira (5) e se estende até domingo. A agência participou da cobertura do evento; repórter e fotógrafa viajaram a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flipelô 2026, conforme informado na matéria original.

  • Projeto Rede Memória Viva selecionará quatro territórios para rede nacional de afroturismo

    Projeto Rede Memória Viva selecionará quatro territórios para rede nacional de afroturismo

    O projeto Rede Memória Viva abriu um edital para escolher quatro territórios que integrarão uma rede nacional dedicada ao fortalecimento da memória e da cultura afro-brasileiras por meio do afroturismo. As inscrições estão disponíveis no site oficial da iniciativa e podem ser feitas até o dia 3 de outubro. A divulgação dos territórios selecionados está marcada para 22 de outubro, conforme reportagem da Agência Brasil.

    Inscrições e cronograma

    Todas as informações sobre o edital, incluindo o formulário de inscrição, estão concentradas no site do projeto. A data final para envio das propostas é 3 de outubro; os nomes dos quatro territórios escolhidos serão anunciados em 22 de outubro. A seleção visa identificar localidades que já atuem na preservação da memória afro-brasileira e que tenham potencial de ampliar reconhecimento e visibilidade por meio de iniciativas de afroturismo.

    O que está em jogo para os territórios selecionados

    Os quatro territórios contemplados participarão de um processo institucional que prevê acesso a formações e ao desenvolvimento de projetos. O projeto também oferta estratégias orientadas ao turismo de base comunitária, à economia da cultura e ao reforço das iniciativas locais. Segundo a Agência Brasil, a proposta é contribuir para que essas localidades obtenham maior visibilidade e apoio técnico para consolidar práticas que preservam a herança africana no Brasil.

    Consórcio Viva Pequena África e as ações de mapeamento

    A iniciativa integra ações do Consórcio Viva Pequena África, formado por organizações citadas pela reportagem: o Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap), a Diáspora.Black e a Feira Preta. Além da seleção de territórios, o projeto realiza um mapeamento nacional de experiências que preservam a história e a cultura afro-brasileiras.

    O mapeamento mencionado pela reportagem inclui uma diversidade de espaços e iniciativas, como quilombos, comunidades tradicionais, museus comunitários, centros culturais e organizações da sociedade civil. O objetivo desse levantamento é ampliar a visibilidade de lugares e projetos que atuam diretamente na preservação da memória afro-brasileira.

    Como o projeto descreve o afroturismo

    Na cobertura da Agência Brasil, o afroturismo é definido como o turismo realizado em locais ligados à ancestralidade africana e à cultura negra. Dentro do escopo do Rede Memória Viva, o termo indica a proposta de fomentar roteiros, atividades e iniciativas turísticas que valorizem patrimônio imaterial e materiais relacionados à história afro-brasileira.

    As ações previstas — formação, desenvolvimento de projetos e construção de estratégias — têm foco em fortalecer iniciativas locais e potencializar a economia da cultura atrelada a práticas comunitárias de turismo. A organização do edital e o mapeamento nacional buscam identificar e visibilizar experiências que já desempenham esse papel de preservação cultural.

    As informações sobre o edital, cronograma e critérios de participação estão disponíveis no site oficial do projeto Rede Memória Viva. A cobertura inicial dos dados citados nesta matéria tem como fonte a Agência Brasil.

  • Escreviventes reúne Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz em diálogo sobre memória e literatura

    Escreviventes reúne Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz em diálogo sobre memória e literatura

    Escreviventes, publicado pela Pallas Editora, reúne a conversa de duas escritoras reconhecidas no cenário literário brasileiro: Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz. Segundo reportagem da Agência Brasil, o lançamento aconteceu durante a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde ambas participaram de eventos com grande público.

    Gravação e contexto

    O diálogo que originou o livro foi registrado em dois dias na Kaza 123, quilombo urbano localizado em Vila Isabel, zona norte do Rio de Janeiro. A escolha do local e o formato de gravação trouxeram à tona experiências pessoais que atravessam a escrita, mostrando como vivências e memórias alimentam a produção literária de ambas.

    Temas centrais do diálogo

    Durante a conversa, as autoras trataram de temas recorrentes em suas obras: literatura, memória, racismo, maternidade, envelhecimento e amizade. A discussão procurou vincular vivência e criação, ressaltando a importância do registro como forma de resistência e afirmação de direitos culturais. Em evento na Casa Estante Virtual, Conceição Evaristo afirmou: “Nós estamos exercendo o direito à memória”, segundo a Agência Brasil.

    O conceito de “escrevivência”

    Conceição explicou que sua noção de escrevivência não se reduz a um depoimento autobiográfico; abrange também a criação ficcional. Ao citar referenciais como o autor angolano Pepetela, ela destacou que “só escreve ficção quem conhece a realidade”, apontando que o conhecimento do mundo possibilita a elaboração de narrativas, inclusive a ficcionalização de memórias que não foram vividas diretamente.

    Relações com outros textos e personagens

    Na conversa, houve menção ao romance Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, cuja protagonista, Kehinde, representa uma mulher africana em busca de um filho perdido no Brasil. Conceição relacionou a obra a práticas de criação de memória, observando que personagens como Kehinde se inspiram em figuras históricas — o texto citado aponta mulheres reais, como a ativista Luiza Mahin — e que a ficção pode ser um modo de compor ausências e trajetórias.

    Livro, coleção e documentário

    Escreviventes inaugura a coleção Memórias Brasileiras e antecede um documentário homônimo dirigido por Estevão Ribeiro. A produção audiovisual tem previsão de estreia em festivais no ano de 2027, conforme a reportagem da Agência Brasil. O lançamento impõe-se como registro da trajetória das autoras e como contribuição ao entendimento da literatura brasileira contemporânea.

    Registros, representatividade e desafios no audiovisual

    Eliana Alves Cruz ressaltou a necessidade de registros biográficos e documentais sobre autoras e intelectuais negras, citando a carência de material sobre nomes como Lélia Gonzalez. Ela avaliou que toda oportunidade de registrar trajetórias deve ser aproveitada, descrevendo o projeto como realizado “na garra”.

    Ao mesmo tempo, Eliana apontou dificuldades específicas na adaptação de projetos sobre história e memória negra para o formato audiovisual. A escritora manifestou um protesto diante do que definiu como um cenário complicado nesse setor e destacou que a democratização do acesso à literatura no Brasil é processo recente, impulsionado por tecnologias como os e-books, enquanto o audiovisual permanece menos acessível para essas narrativas.

    Além de reunir vozes e experiências, Escreviventes surge como tentativa de consolidar registros autorais e coletivos que ampliem o entendimento da contribuição de mulheres e de escritoras negras à literatura nacional — um ponto enfatizado por Conceição ao afirmar que a história literária do país tem dívidas com essas autoras.

    O lançamento, marcado também pelos aniversários simbólicos das escritoras em 2026 — Conceição completando 80 anos e Eliana 60 —, reforça a dimensão simbólica da obra como documento e celebração de trajetórias.