A Associação Marroquina de Direitos Humanos (AMDH) atribuiu ao Estado do Marrocos a responsabilidade pelo êxodo recente de mais de 50 mil pessoas que tentaram chegar aos enclaves espanhóis de Ceuta e Melilla. Em documento aprovado pelo seu Bureau Central, a organização considera que a migração em massa é o resultado de um processo de frustração coletiva, sobretudo entre os jovens.
Acusações centrais da AMDH
Segundo a AMDH, o deslocamento não é apenas consequência de decisões individuais, mas sim a manifestação de uma geração para a qual emigrar passou a ser uma forma de expressar a revolta contra o que a ONG descreve como o fracasso das políticas estatais. No texto, a associação critica a concentração de riqueza e a apropriação dos recursos por um pequeno grupo por meio de “uma economia rentista, da corrupção, do autoritarismo e da tirania”.
A ONG também denunciou que a crise migratória vem sendo explorada como ferramenta de pressão política ou de negociação com a Espanha e outros países europeus, afirmando que os direitos fundamentais das pessoas não podem ser sacrificados em “jogos políticos e diplomáticos”.
Mortes e impacto humanitário
O governo de Ceuta relatou que quase 100 pessoas morreram durante o percurso até os enclaves, conforme informações citadas pela Agência Brasil. A AMDH classificou como inaceitável a instrumentalização da crise e condenou o que chamou de “silêncio suspeito” das instituições estatais marroquinas, que, segundo a ONG, contribuiu para um estado de mobilização em várias cidades e regiões.
Contexto socioeconômico e avaliação de especialistas
Especialistas consultados pela Agência Brasil divergem sobre a existência ou não de anuência do governo marroquino para a crise migratória — hipótese que, se confirmada, poderia servir a interesses diplomáticos no relacionamento com países europeus. A AMDH, porém, mantém a crítica direta ao papel do Estado no processo.
O professor Mohammed Nadir, docente de relações internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), afirmou à Agência Brasil que o êxodo expõe o “fracasso” do projeto de desenvolvimento nacional para grande parte da população. Ele reconheceu avanços em infraestrutura e projetos industriais, liderados pelo rei, mas disse que esses ganhos não se traduziram em oportunidades amplas para os jovens marroquinos.
Pronunciamento do rei e indicadores econômicos
Ao completar 27 anos no trono em 29 de julho, o rei Mohammed VI divulgou mensagem enaltecendo conquistas recentes e pedindo otimismo, citando segurança, estabilidade institucional e o crescimento de cerca de 4,9% do Produto Interno Bruto em 2025, conforme divulgado na mesma cobertura da Agência Brasil.
O rei destacou ainda o desenvolvimento do setor automotivo e aeroespacial, apontando o país como principal exportador automotivo da África e estimando capacidade de produção anual próxima a 1 milhão de veículos, com a participação desses setores nas exportações superando a da indústria de fosfato, segundo o relato oficial mencionado pela fonte.
Indicadores sociais
Dados das Nações Unidas citados pela reportagem indicam que, em 2023, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Marrocos foi de 0,71, posicionando o país em 120º lugar entre 193 países e territórios e na 10ª colocação no continente africano. Ainda segundo a fonte, a taxa de desemprego entre jovens de 15 a 24 anos era de 24,9% em 2022.
Repercussões externas
A AMDH criticou também a escalada retórica observada na Europa e nos Estados Unidos, atribuída em parte à extrema-direita, que, segundo a organização, tem incitado ódio contra imigrantes e os apresentado como ameaça às sociedades ocidentais.
A cobertura que embasa esta reportagem foi publicada pela Agência Brasil e reúne declarações da AMDH, de especialistas e dados oficiais citados pela própria agência.


