Tag: Intolerância religiosa

  • Porto Alegre reúne marchantes e praticantes da Quimbanda contra a intolerância religiosa

    Porto Alegre reúne marchantes e praticantes da Quimbanda contra a intolerância religiosa

    Porto Alegre se tornou neste sábado (15) palco de mobilizações contra a intolerância religiosa com a realização da 3ª Marcha dos Quimbandeiros e do 19º Encontro Internacional de Quimbandeiros. As iniciativas, organizadas pela Sociedade Beneficente Cultural Oxum e Oxalá, foram coordenadas por Pai Ricardo de Oxum, babalorixá do terreiro de batuque e liderança tradicional das religiões de matriz africana no Rio Grande do Sul.

    Programação e objetivos dos eventos

    A marcha, prevista para as 14h, e o encontro, com início às 20h, buscavam transformar Porto Alegre em referência para sacerdotes e praticantes da Quimbanda no Brasil e nos países vizinhos. Segundo a organização, a mobilização tem finalidade de dar visibilidade às práticas religiosas, refutar estigmas sobre entidades como Exu e Pomba‑Gira e relatar casos de preconceito sofridos por terreiros e fiéis.

    Na edição anterior, a marcha reuniu cerca de 2 mil pessoas, segundo relato do organizador à Agência Brasil. O formato combina manifestação de rua, com trio elétrico e cantos de pontos, e relatos de experiências de intolerância trazidos por participantes de diversos municípios.

    Contexto regional e dados de referência

    O Rio Grande do Sul é apontado pelo Censo Demográfico 2022 do IBGE como o estado com maior percentual de seguidores de umbanda e candomblé em relação à sua população (3,19%). Outros estados com índices relevantes citados são Rio de Janeiro (2,58%), São Paulo (1,47%), Bahia (1%) e Distrito Federal (0,85%).

    Para os organizadores, a mobilização está diretamente ligada ao histórico de preconceito no estado. Pai Ricardo afirmou à Agência Brasil que, há quase duas décadas, o encontro foi criado como resposta a episódios em que praticantes eram impedidos de se manifestar em público ou sofriam intervenções policiais por celebrarem sua fé nas ruas.

    Além dos números do IBGE, a Direção citada na reportagem também recorreu a dados do Disque 100: entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026 o canal registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa. Nos casos em que a fé da vítima foi identificada, umbanda teve 228 registros e candomblé 161 — indicadores que, segundo Pai Ricardo, apontam para um racismo religioso estrutural.

    Internacionalização e experiências em países vizinhos

    O Encontro de Quimbandeiros, em sua 19ª edição, já ganhou audiência e participação internacional, com presença de praticantes da Argentina, do Uruguai e do Chile, segundo o organizador. Pai Ricardo relatou à Agência Brasil que a resistência à manifestação das práticas é mais explícita na Argentina, onde denúncias de vizinhos podem resultar em retirada de tambores pela polícia sem diálogo. No Uruguai e no Chile, avaliou, a religião enfrenta obstáculos que dificultam seu crescimento e visibilidade pública.

    Desmistificação de Exu e Pomba‑Gira e reconhecimento cultural

    Uma das frentes do evento foi a explicação sobre as entidades conhecidas como Exu e Pomba‑Gira. Pai Ricardo destacou que essas figuras, de origens diversas, não correspondem à ideia de mal propagada por preconceito e que atuam em diferentes campos da vida — amor, família, trabalho — conforme declaração à Agência Brasil. Ele citou ainda a experiência do desfile da escola de samba Grande Rio em 2022 como exemplo de ação cultural que ajudou a popularizar interpretações mais articuladas sobre Exu.

    Além das atividades culturais e de protesto, o Encontro em Porto Alegre ocorreu em um espaço doado pela prefeitura, que abriga um monumento a Exu — descrito na reportagem como o primeiro em área aberta no Brasil — implantado há cinco anos, segundo o organizador.

    Mobilização e próximos passos

    Os organizadores veem a marcha e o encontro como espaços para partilha de relatos e fortalecimento da resistência. Relatos de discriminação vindos de diferentes municípios foram parte da programação, com cartazes e manifestações públicas contra a intolerância religiosa. O ato de quatro meses antes, quando Pai Ricardo liderou um ato inter‑religioso em homenagem a São Jorge junto à Igreja São Jorge de Porto Alegre, também foi citado como exemplo de diálogo inter‑religioso.

    As informações desta matéria são baseadas em relatos e dados publicados pela Agência Brasil.

  • MP-SP abre inquérito para apurar entrada de 12 PMs em escola após atividade sobre orixás

    MP-SP abre inquérito para apurar entrada de 12 PMs em escola após atividade sobre orixás

    O Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) instaurou inquérito civil para investigar a entrada de 12 policiais militares armados em uma escola municipal da Zona Oeste de São Paulo após ocorrência relacionada a uma atividade pedagógica sobre a orixá Iansã. O episódio ocorreu em 11 de novembro de 2025 e motivou apurações sobre possíveis violações ao direito à educação, discriminação religiosa e conduta policial.

    O que aconteceu

    Segundo o MPSP, a intervenção policial na EMEI Antônio Bento foi desencadeada por uma denúncia de um pai de aluna de 4 anos. O pai, que também é policial militar, reclamou da atividade desenvolvida pela escola envolvendo a orixá Iansã. Em seguida, 12 PMs entraram no estabelecimento munidos de armas.

    Após os fatos, a Polícia Civil do Estado de São Paulo indiciou o pai da aluna por intolerância religiosa, conforme informação divulgada pelo Ministério Público.

    Investigação do Ministério Público

    A investigação do MPSP baseia-se em depoimentos, documentos e na análise das imagens registradas pelas câmeras corporais dos policiais envolvidos. De acordo com o promotor de Justiça Bruno Orsino Simonetti, os elementos reunidos até o momento não indicam a existência de crime que justificasse a ação policial dentro da escola, o que faz com que a diligência seja considerada pelo Ministério Público como “injustificada”.

    O inquérito civil buscará aprofundar a apuração sobre a possível violação do direito à educação e do livre exercício da atividade pedagógica, levando em conta a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).

    Posições das autoridades

    Em relatório preliminar citado pelo MPSP, a Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP-SP) concluiu que os policiais militares agiram em conformidade e não identificou necessidade de instaurar Inquérito Policial Militar ou sindicância. Essa avaliação contrasta com a avaliação inicial do Ministério Público, que considera a entrada dos policiais na escola sem justificativa suficiente.

    Por sua vez, a Secretaria Municipal de Educação (SME) informou que a atividade pedagógica questionada estava alinhada ao Currículo da Cidade para Educação Infantil, às Orientações Pedagógicas de Educação Antirracista e às Leis Federais 10.639/2003 e 11.645/2008, que tratam do ensino da história e cultura afro-brasileira, africana e indígena nas escolas.

    Implicações legais e educacionais

    O inquérito civil do MPSP pretende avaliar se a atuação policial configurou uma interferência indevida no ambiente escolar e se houve violação ao direito à educação e à liberdade de exercer atividade pedagógica prevista em lei. A apuração também investigará possíveis práticas de discriminação racial ou intolerância religiosa associadas ao episódio.

    Até o momento, os fatos podem resultar em diferentes desdobramentos: a continuidade da investigação civil por parte do Ministério Público, procedimentos internos na própria polícia estadual (caso sejam reabertos) ou medidas administrativas e disciplinares dependendo das conclusões das apurações. A Polícia Civil já indiciou o pai da aluna por intolerância religiosa, conforme noticiado pelo MPSP.

    Próximos passos

    • O MPSP seguirá a coleta e análise de provas, incluindo imagens das câmeras corporais, depoimentos e documentos.
    • A apuração buscará esclarecer se houve violação ao direito à educação e às normas que regem o ensino da cultura afro-brasileira e indígena.
    • Outras medidas cabíveis serão tomadas conforme as conclusões do inquérito civil e de investigações paralelas, quando for o caso.

    As informações sobre o caso foram divulgadas pelo Ministério Público de São Paulo e registradas em reportagem da Agência Brasil.