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  • Escreviventes reúne Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz em diálogo sobre memória e literatura

    Escreviventes reúne Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz em diálogo sobre memória e literatura

    Escreviventes, publicado pela Pallas Editora, reúne a conversa de duas escritoras reconhecidas no cenário literário brasileiro: Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz. Segundo reportagem da Agência Brasil, o lançamento aconteceu durante a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde ambas participaram de eventos com grande público.

    Gravação e contexto

    O diálogo que originou o livro foi registrado em dois dias na Kaza 123, quilombo urbano localizado em Vila Isabel, zona norte do Rio de Janeiro. A escolha do local e o formato de gravação trouxeram à tona experiências pessoais que atravessam a escrita, mostrando como vivências e memórias alimentam a produção literária de ambas.

    Temas centrais do diálogo

    Durante a conversa, as autoras trataram de temas recorrentes em suas obras: literatura, memória, racismo, maternidade, envelhecimento e amizade. A discussão procurou vincular vivência e criação, ressaltando a importância do registro como forma de resistência e afirmação de direitos culturais. Em evento na Casa Estante Virtual, Conceição Evaristo afirmou: “Nós estamos exercendo o direito à memória”, segundo a Agência Brasil.

    O conceito de “escrevivência”

    Conceição explicou que sua noção de escrevivência não se reduz a um depoimento autobiográfico; abrange também a criação ficcional. Ao citar referenciais como o autor angolano Pepetela, ela destacou que “só escreve ficção quem conhece a realidade”, apontando que o conhecimento do mundo possibilita a elaboração de narrativas, inclusive a ficcionalização de memórias que não foram vividas diretamente.

    Relações com outros textos e personagens

    Na conversa, houve menção ao romance Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, cuja protagonista, Kehinde, representa uma mulher africana em busca de um filho perdido no Brasil. Conceição relacionou a obra a práticas de criação de memória, observando que personagens como Kehinde se inspiram em figuras históricas — o texto citado aponta mulheres reais, como a ativista Luiza Mahin — e que a ficção pode ser um modo de compor ausências e trajetórias.

    Livro, coleção e documentário

    Escreviventes inaugura a coleção Memórias Brasileiras e antecede um documentário homônimo dirigido por Estevão Ribeiro. A produção audiovisual tem previsão de estreia em festivais no ano de 2027, conforme a reportagem da Agência Brasil. O lançamento impõe-se como registro da trajetória das autoras e como contribuição ao entendimento da literatura brasileira contemporânea.

    Registros, representatividade e desafios no audiovisual

    Eliana Alves Cruz ressaltou a necessidade de registros biográficos e documentais sobre autoras e intelectuais negras, citando a carência de material sobre nomes como Lélia Gonzalez. Ela avaliou que toda oportunidade de registrar trajetórias deve ser aproveitada, descrevendo o projeto como realizado “na garra”.

    Ao mesmo tempo, Eliana apontou dificuldades específicas na adaptação de projetos sobre história e memória negra para o formato audiovisual. A escritora manifestou um protesto diante do que definiu como um cenário complicado nesse setor e destacou que a democratização do acesso à literatura no Brasil é processo recente, impulsionado por tecnologias como os e-books, enquanto o audiovisual permanece menos acessível para essas narrativas.

    Além de reunir vozes e experiências, Escreviventes surge como tentativa de consolidar registros autorais e coletivos que ampliem o entendimento da contribuição de mulheres e de escritoras negras à literatura nacional — um ponto enfatizado por Conceição ao afirmar que a história literária do país tem dívidas com essas autoras.

    O lançamento, marcado também pelos aniversários simbólicos das escritoras em 2026 — Conceição completando 80 anos e Eliana 60 —, reforça a dimensão simbólica da obra como documento e celebração de trajetórias.

  • Pelos Olhos de Orides adapta a poesia da autora para o público infantil e é lançado na Flip

    Pelos Olhos de Orides adapta a poesia da autora para o público infantil e é lançado na Flip

    O livro Pelos Olhos de Orides (Editora Hedra) reúne poemas de Orides Fontela adaptados para o público infantil, propondo que crianças se aproximem da poesia a partir de elementos simples do cotidiano — como nuvens, pássaros, flores e até vacas — e de uma estética que estimula a contemplação.

    Uma poesia que parte do cotidiano

    A obra destaca o caráter preciso e imagético da poesia de Orides, que transforma pequenos elementos da natureza em motivos de reflexão sobre o mundo, o tempo e a espera. Segundo o organizador do volume, Augusto Massi, essa linguagem compartilha com a infância uma postura investigativa: o livro foi concebido com espaços e contrastes para incentivar perguntas e permitir múltiplas interpretações.

    Orides Fontela, lembrada por imagens como “a flor do céu” para designar uma nuvem, faleceu em 1998, aos 58 anos, logo após o lançamento de Teia, fato recordado durante o lançamento do livro na Flip.

    Lançamento na Flip: debate e recepção

    O lançamento de Pelos Olhos de Orides ocorreu em julho na Casa da Árvore, em Paraty, no âmbito da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde Orides foi a autora homenageada. A celebração incluiu mesa de conversa com o organizador Augusto Massi e a ilustradora Cynthia Cruttenden, que comentaram tanto a seleção dos poemas quanto as soluções visuais do livro.

    O poeta e educador André Gravatá, que participou do evento e concedeu entrevista à Agência Brasil, destacou a capacidade das crianças de se relacionarem com a poesia como experiência concreta: citou o exemplo de uma menina que, ao escovar os dentes, disse “eu te amo” à água — uma situação que Gravatá interpretou como um poema vivido. Para ele, provocar o gosto pela literatura desde a infância ajuda a nutrir sensibilidade e a manter a disposição para o espanto.

    Ilustração e proposta visual

    O projeto gráfico e de ilustração foi apontado por Massi como “um acontecimento”. Em vez de recorrer a imagens literais, a ilustradora Cynthia Cruttenden optou por explorar formas, cores e movimentos que abrem possibilidades interpretativas: figuras com cores fortes e dinâmicas, às vezes menos definidas, que convidam a criança a procurar e inventar sentidos.

    Cynthia disse que a característica lúdica das imagens — com figuras “meio escondidas” e dualidades de leitura — é justamente o que instiga a imaginação infantil, oferecendo liberdade visual e alegria.

    Ações educativas e alcance social na Flip

    O lançamento aconteceu num contexto mais amplo de atividades educativas na Flip. A programação do evento incluiu o Circuito Cultural, que levou cerca de 270 crianças e adolescentes das comunidades locais a participar do festival. O projeto, direcionado a estudantes da rede pública e a participantes de organizações sociais, é promovido pelo Instituto Motiva e atua em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, e planeja atingir mais de 3 mil crianças e jovens ao longo do ano.

    O Programa Educativo da 24ª Flip — que engloba Flipinha, FlipZona e FlipEduca — registrou mais de 15 mil participações em atividades gratuitas realizadas em quatro dias, reunindo crianças, jovens, famílias, educadores e mediadores de leitura. Jéssica Trevisam, gerente do Instituto Motiva, afirmou que a conexão de crianças e jovens com museus e festivais amplia repertório, fortalece senso de pertencimento e contribui para a formação de cidadãs e cidadãos mais críticos e criativos.

    Perspectivas e argumentos sobre educação literária

    Autores e organizadores presentes ao lançamento defenderam a centralidade das ações educativas em eventos de literatura. Gravatá destacou que espaços educativos bem estruturados e com programação ampliada provocam relações afetivas com o livro desde a infância, e apontou cenas observadas na Flip — como uma criança abraçada a um livro — como indicativo do impacto dessas iniciativas.

    Massi ressaltou que a poesia de Orides ensina a “tecer considerações” sobre o mundo, lembrando vivências da autora, que costumava passear e pescar com o pai em silêncio — prática que, segundo ele, aguça a escuta dos sons do ambiente natural sem tom de denúncia, conferindo ao livro uma dimensão ecológica percebida em sua leitura.

    As informações sobre o livro e os depoimentos citados foram apurados pela Agência Brasil durante a cobertura da Flip. A equipe de reportagem viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026, conforme nota da Agência Brasil.