Um artigo publicado em 28 de julho de 2026 na revista Nature Mental Health e repercutido pela Agência Brasil questiona a forma como a depressão resistente ao tratamento é avaliada. Segundo os autores, parte dos pacientes considerados refratários a antidepressivos pode, na verdade, conviver com dor crônica que nunca foi medida sistematicamente e que reduz a resposta aos medicamentos.
O que diz o estudo
Os autores — entre eles Nilson Mendes Neto, médico e pesquisador vinculado à Harvard Medical School, Brendon Stubbs (King’s College London) e Jessika Mendes (NeuroPsy) — destacam que a definição corrente de depressão resistente baseia-se na falha de tratamentos antidepressivos em dose e duração adequadas. Eles observam que a presença, a intensidade e o impacto funcional da dor não fazem parte formal dessa definição.
Instrumentos comumente usados na prática clínica, como o PHQ-9 e a escala de Hamilton, não avaliam diretamente a carga de dor, segundo o artigo. Por isso, mesmo quando o clínico tem ciência da existência de dor no paciente, essa informação nem sempre é mensurada de maneira padronizada e integrada à avaliação da resposta ao tratamento.
Por que a dor pode alterar a avaliação da depressão resistente
Os autores argumentam que a dor crônica pode tanto reduzir a eficácia de antidepressivos quanto interferir na interpretação da persistência dos sintomas depressivos. Assim, em alguns pacientes, uma condição dolorosa não identificada pode ser um fator que contribui para a aparência de resistência ao tratamento.
Os pesquisadores deixam claro que não afirmam que a maioria dos casos de depressão resistente seja explicada pela dor, nem que pacientes com dor estejam isentos de uma depressão verdadeiramente refratária. Eles reconhecem a incerteza sobre qual proporção de casos pode se enquadrar nessa situação, justamente porque a dor não é medida de forma sistemática nos estudos e na prática clínica.
Implicações para a prática clínica e para o SUS
No artigo, Nilson Mendes Neto aponta implicações práticas para o Sistema Único de Saúde (SUS). Entre as recomendações aparece a realização, já na atenção primária e nos serviços de saúde mental, de avaliações estruturadas sobre a presença, a duração e o impacto funcional da dor.
Segundo o pesquisador, essas medidas não exigiriam, em princípio, tecnologia de alto custo: rastrear a dor, registrar essas informações de forma padronizada e integrar serviços de atenção primária, psiquiatria e cuidado da dor seriam passos iniciais possíveis. Isso poderia evitar que pacientes sejam encaminhados para tratamentos progressivamente mais especializados e caros sem que fatores potencialmente modificáveis tenham sido avaliados.
Eficiência e integração entre serviços
- Os autores defendem que a identificação estruturada da dor pode aumentar a precisão na classificação da depressão resistente.
- Integrar o manejo da dor com serviços de saúde mental reduz o risco de fragmentação, já que condições dolorosas crônicas são comuns entre pacientes com depressão.
- Medidas simples de triagem e registro podem orientar decisões sobre avanços terapêuticos sem atrasar o acesso a tratamentos eficazes.
O artigo cita exemplos de condições frequentemente associadas à dor crônica — como lombalgia, osteoartrite, fibromialgia e neuropatias — e lembra que esses problemas muitas vezes são acompanhados em serviços distintos, embora o paciente seja o mesmo.
Limitações e incertezas apontadas pelos autores
Os autores reconhecem limites do argumento: não há, até o momento, dados que permitam quantificar a parcela de pacientes classificados como resistentes cuja condição seria explicada principalmente por dor não medida. Eles enfatizam que a falta de medições padronizadas impede responder essa pergunta de forma satisfatória hoje.
Também ressaltam que a intenção do artigo não é recomendar que pacientes interrompam ou mudem medicações com base apenas nessa hipótese. A proposta é, antes, melhorar a avaliação clínica para oferecer tratamentos mais precisos.
As conclusões e recomendações aqui descritas têm como fonte o artigo publicado na revista Nature Mental Health e a reportagem da Agência Brasil sobre esse trabalho.
