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  • Risco de desertificação avança no Brasil e ameaça segurança hídrica e alimentar

    Risco de desertificação avança no Brasil e ameaça segurança hídrica e alimentar

    A desertificação no Brasil é um processo de degradação do solo em que terras antes capazes de reter água e sustentar vida perdem essas condições — resultado tanto de pressões humanas quanto de variações climáticas. Estima-se que 39 milhões de pessoas vivam em áreas ameaçadas e que 18% do território nacional seja classificado como Área Suscetível à Desertificação (ASD), aponta boletim da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).

    O que é desertificação e onde ela avança

    Ao contrário da imagem comum de desertos hiperáridos como o Saara, a desertificação compreende um espectro de climas em que há menor disponibilidade hídrica e perda de produtividade. No Brasil, a expansão identificada entre 2000 e 2020 levou a área afetada de 1,35 milhão para 1,51 milhão de km² — um acréscimo de 170 mil km², equivalente à soma dos territórios de Pernambuco, Paraíba e Alagoas.

    Os níveis de aridez variam no país: subúmido seco, semiárido e árido, definidos pelo índice de aridez. Em 2023, uma área de cerca de 6 mil km² entre Pernambuco e Bahia foi classificada como a primeira região árida brasileira, com base em análises do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

    Populações e impactos

    As consequências atingem em primeiro lugar populações vulneráveis e tradicionais: sertanejos, agricultores familiares, povos indígenas, quilombolas, geraizeiros, pantaneiros e pampeiros. Representantes da sociedade civil destacam que essas comunidades sentem antes os efeitos por dependerem diretamente da água e da biodiversidade locais.

    Os impactos, entretanto, extrapolam as áreas degradadas: afetam a produção de alimentos, a disponibilidade de água, a economia local e contribuem para elevação de temperatura, com efeitos que chegam às cidades. Em resposta, organizações e governantes levarão o tema à 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), marcada para 17 a 28 de agosto na Mongólia.

    Caatinga: riscos e papel para o clima

    Entre os biomas brasileiros, a Caatinga concentra os níveis mais severos de degradação. Cerca de 11% do bioma está em situação crítica ou severa — aproximadamente 100 mil km² — e 42,6% da vegetação nativa já foi suprimida. Pesquisas do Instituto Nacional do Semiárido (Insa) e do Observatório da Caatinga e da Desertificação (OCA) mostram que o bioma tem papel relevante no sequestro de carbono e na manutenção do equilíbrio climático.

    Segundo monitoramento citado pelo Insa, a Caatinga aproveita carbono com eficiência superior a outros biomas do país e armazena cerca de 72% desse carbono no solo — estimado em torno de 125 toneladas por hectare. Um estudo publicado em 2025 na revista Science of the Total Environment indicou que, em 2022, a Caatinga foi responsável por cerca de 50% do sequestro líquido de carbono do Brasil.

    Políticas e iniciativas de restauração

    O Brasil assinou a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) em 1997 e, em março de 2026, lançou o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil 2025–2043). O plano propõe o enfrentamento do problema por meio de políticas que articulam meio ambiente, saúde, educação, assistência social, infraestrutura e inovação.

    Em junho de 2026 foi lançado o Programa Recaatingar, cuja meta declarada é recuperar produtivamente 10 milhões de hectares de terras degradadas na Caatinga nos próximos 20 anos. O Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (DCDE), ligado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, informou que o programa se baseia em conhecimentos tradicionais e tecnologias sociais para promover segurança hídrica, restauração socioprodutiva e adaptação climática.

    Resultados e tecnologias sociais

    Antes do Recaatingar, práticas sociais e tecnológicas já haviam mostrado resultados: 36 mil hectares em conservação, 2 mil hectares em recuperação ativa, 15 sistemas de agrocaatinga, 31 planos de manejo implementados e mais de 280 enxames de abelhas nativas restabelecidos na paisagem, segundo levantamento citado pelo Insa. Técnicas como manejo agrossilvipastoril, sistemas agroflorestais, rotação de culturas e barragens subterrâneas são apontadas como formas de devolver água, carbono e fertilidade ao solo.

    A Agência Brasil acompanhará a COP17 diretamente da Mongólia e publicará uma série de reportagens sobre os desdobramentos internacionais e os reflexos das decisões na realidade brasileira, em parceria com a UNCCD.

  • COP17 da Desertificação começa na Mongólia com foco em restauração de terras e resiliência à seca

    COP17 da Desertificação começa na Mongólia com foco em restauração de terras e resiliência à seca

    A partir de 17 de agosto, Ulaanbaatar, capital da Mongólia, acolhe a COP17 da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD). O encontro, que vai até 28 de agosto, reúne delegações de 196 países e da União Europeia para tratar da degradação dos solos e da seca, sob o mote “Restaurando a terra. Restaurando a esperança”.

    Por que a Mongólia foi escolhida como sede

    A opção pela Mongólia reflete a gravidade da crise no país. Relatórios citados pela UNCCD indicam que cerca de 77% do território mongol está afetado pela degradação, um quadro que ameaça o desenvolvimento econômico e o modo de vida de aproximadamente um terço da população. A nação também enfrenta o fenômeno conhecido como dzud — ciclos de seca seguidos de invernos extremamente rigorosos — que, entre 2023 e 2024, levou à morte de mais de 7 milhões de cabeças de gado e provocou deslocamentos internos.

    Agenda e prioridades da conferência

    A programação da COP17 combina sessões formais com fóruns paralelos e eventos de alto nível. A primeira semana é dedicada às aberturas, definição de comitês e à apresentação de minutas de decisão sobre restauração de terras e resiliência à seca. Na segunda semana, líderes nacionais participam de diálogos ministeriais sobre financiamento, metas de combate à degradação e medidas para apoiar comunidades pastoreiras.

    • 24/08 — Finanças
    • 25/08 — Água
    • 26/08 — Terra e Povos
    • 27/08 — Sistemas alimentares e saúde do solo

    Participação do Brasil e foco nacional

    O Brasil participa com representantes do setor público e privado, além de instituições de pesquisa e ONGs. O Pavilhão Brasil, localizado na área principal do evento (Blue Zone), servirá para exposições sobre tecnologias, políticas públicas e projetos relacionados ao manejo e restauração de terras. No país, a desertificação atinge áreas áridas, semiáridas e subúmidas secas, com destaque para o bioma Caatinga, presente em todos os estados do Nordeste e em parte de Minas Gerais. Dados citados indicam que 18% do território brasileiro está sujeito à desertificação e que cerca de 39 milhões de pessoas são afetadas pelo problema.

    Escala do problema no mundo e investimentos necessários

    Segundo relatórios da UNCCD, a degradação de terras afeta o bem-estar e a subsistência de 1,5 bilhão de pessoas globalmente, e quase 40% das terras do planeta já estão degradadas. A combinação dos custos da degradação e da seca supera 878 bilhões de dólares por ano. Para restaurar 1 bilhão de hectares até 2030 e aumentar a resiliência à seca, a UNCCD estima a necessidade de 2,6 trilhões de dólares em investimentos, envolvendo tanto fundos públicos quanto privados.

    A conferência ocorre no Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores (IYRP 2026), uma iniciativa da ONU que destaca a importância desses ecossistemas e dos povos que deles dependem para segurança alimentar e conservação ambiental. A COP17 incluirá discussões específicas sobre o papel das pastagens naturais e do bem-estar das comunidades pastoreiras.

    Lideranças e simbolismo da jornada entre sedes

    Duas mulheres ocupam posições centrais na realização do evento: Yasmine Fouad, secretária-executiva da UNCCD, e a ministra das Relações Exteriores da Mongólia, Battsetseg Batmunkh, presidente designada da COP17. Para marcar a transição entre a COP16, realizada em Riade, e a atual edição, uma caravana com cientistas e representantes oficiais percorreu historicamente a rota entre as duas capitais, destacando experiências de manejo sustentável e defendendo maior apoio político e financeiro às ações de restauração.

    Organizações ambientais e lideranças políticas brasileiras têm defendido que o país se candidate a sediar a COP18, em 2028, na Região Nordeste, retomando uma tradição: o Brasil já sediou a COP sobre desertificação em 1999, em Recife.

    Esta reportagem baseia-se em informações divulgadas pela Agência Brasil e em dados e análises citados pela UNCCD durante a preparação e divulgação da COP17. A Agência Brasil acompanhará a conferência diretamente da Mongólia, com repórteres selecionados por meio de uma parceria com a UNCCD.